Voluntariado Corporativo: como desenvolver um programa transformador

Conteúdo traduzido e adaptado do vídeo apresentado por Chris Jarvis, Co-fundador e CEO da Consultoria Global em Voluntariado Empresarial Realized Worth.

voluntariado transformador

Imagine a seguinte situação: você não costuma fazer trabalho voluntário, até que um dia aceita o convite do Luiz, aquele colega de trabalho simpático e insistente, para participar de uma ação promovida pela empresa.

No sábado seguinte, às 9h da manhã (com sono e sem muita convicção), você vai ao endereço indicado, é bem recebido pelo Luiz, cumprimenta os colegas e ganha a camiseta da empresa. Veste a camiseta, pergunta o que deve fazer, ele diz que estão pintando as janelas e você começa a ajudar. Terminam de pintar e passam a limpar os vidros. Às 11h30 você avisa que precisa ir embora, pois tem um almoço. A atividade vai até o meio-dia, mas Luiz entende perfeitamente, agradece sua presença com um sorriso e diz para ficar com a camiseta. Você também agradece, se despede do grupo e vai para o seu almoço. Este pode ser um típico dia de trabalho voluntário corporativo.

Agora imagine este segundo cenário: você não costuma fazer trabalho voluntário e aceita o mesmo convite do colega Luiz. Segue os mesmos passos e logo se vê na casa pintando uma janela. Luiz então avisa que em 20 minutos todos se reunirão na cozinha para uma breve conversa. Chegado o momento, lá estão as 12 pessoas atentas à fala de Luiz, que faz questão de mencionar o quanto são valiosas aquelas três horas na manhã de sábado de cada um e o quão satisfeito ele está com a presença de todos. Pede que cada um se apresente, dizendo em que área da empresa trabalha. Você ouve e olha para cada pessoa, diz ao grupo quem é e o que faz. Luiz dá algumas instruções sobre o trabalho e passa a palavra a Paulo, coordenador da instituição responsável pela casa.

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“Eu gostaria de falar sobre este lugar onde estamos. Aqui nós recebemos jovens de 16 a 28 anos que não têm onde morar e estão em busca de uma oportunidade de trabalho. Eles aprendem conosco desde hábitos básicos de higiene e limpeza, até noções fundamentais para poderem trabalhar, como a importância de se chegar pontualmente, não gritar com o chefe e se colocar de forma respeitosa diante dos colegas. Atualmente os jovens cuidam deste espaço, limpam, cozinham e lavam suas roupas, mas a casa exige uma manutenção e para isso nós contamos com voluntários como vocês. E eu gostaria de explicar por que é importante que as janelas daqui estejam pintadas. A maior barreira que esses jovens precisam vencer para superar sua condição não é econômica, material ou intelectual, mas sim acreditar que merecem um futuro melhor. Eles não têm um senso de dignidade. Por tudo o que já passaram com suas famílias, nas ruas, não acreditam que merecem uma vida digna. Quando chegam a um ponto em que poderiam fazer uma escolha diferente, apontando para um futuro diferente do que eles podiam imaginar, quase sempre adotam uma postura autodestrutiva. Portanto, a mensagem mais importante que estamos tentando transmitir a eles aqui a cada dia é: você tem valor, você vale a pena, faça uma escolha diferente. Ao manter esta casa em ordem, estamos todos dizendo: vocês são dignos. Então, a cada pincelada que vocês derem agora, saibam que além de uma camada de tinta, estão reforçando esta mensagem. Isso é o que estamos fazendo hoje aqui. Muito obrigado por terem vindo”.

Cada voluntário volta à sua atividade, Luiz continua acompanhando o grupo, e você, enquanto pinta, pensa na mensagem de dignidade que está transmitindo àqueles jovens.

Ao final, Luiz reúne novamente o grupo e faz duas perguntas: “Como foi esta experiência para você?” e “foi como você esperava?”. Apenas três pessoas dizem algo, como “eu nunca teria pensado na relação entre pintar uma janela e transmitir uma mensagem de dignidade” ou “não imaginava que poderia ser necessário aprender coisas básicas como ser pontual e não gritar com o chefe, mas talvez se minha criação tivesse sido diferente, isso também não fosse óbvio para mim”. Você não diz nada, mas fica pensando naquilo.

São 12h30, você ficou um pouco mais do que o previsto, vai para o seu almoço e adivinhe qual será o seu assunto? Depois chega em casa, encontra a família, e sobre o que vai falar? Provavelmente sobre a experiência de pintar janelas e poder transmitir a um jovem a noção de dignidade.

Isso ocorreu porque o líder abriu um espaço ao final para o grupo refletir sobre o sentido daquilo que estava fazendo. Você havia chegado ali com um modelo mental e uma pré-disposição que certamente foram modificados pela experiência vivida, que revelou novos aspectos sobre o contexto e as pessoas envolvidas. E foi provocado a fazer algo com aquilo. Dar um sentido para aquela vivência, tentar entender o que significou para você e qual o seu papel naquele contexto.

Voluntariado Transacional x Voluntariado Transformador

O primeiro cenário é um exemplo do modelo de voluntariado transacional, cujo objetivo é oferecer um serviço que beneficie uma instituição ou comunidade, como a reforma de uma casa. Em troca, o voluntário recebe o reconhecimento por ter feito um bem. Não há nada de errado com esta modalidade, funciona e pode trazer muitos benefícios.

Já no segundo cenário, o objetivo inclui o anterior e vai além. A ação é planejada de forma a proporcionar aos participantes uma experiência mais profunda, que gera mais empatia, reflexão e pode levar a uma mudança de perspectiva, atitude e comportamento. Esta é a proposta do voluntariado transformador.

Dicas para adotar o modelo transformador

  • Apresentar aos voluntários o contexto da ação, contando a história das pessoas que serão beneficiadas pelo trabalho, de modo a gerar identificação e empatia.
  • Mostrar a importância da tarefa a ser realizada e como ela fará diferença na vida das pessoas, para que o voluntário perceba seu valor.
  • Abrir um espaço ao final para que o voluntário possa dizer como foi sua experiência. Isso permite que ele se coloque, se inclua no processo. Em vez de se ver realizando algo para outra pessoa, pode se sentir fazendo parte de algo que está afetando todos os envolvidos.
  • Propor uma reflexão crítica para que o voluntário analise quais eram suas expectativas, crenças anteriores, e se houve mudanças de perspectiva a partir do contato com aquelas questões sociais que não estavam presentes em seu dia a dia.

Os gestores de voluntariado têm a oportunidade de aplicar essa dimensão reflexiva e afetiva às ações da empresa. E seu potencial é transformador para o colaborador no nível pessoal e na sua relação com as questões sociais de seu entorno, com o programa de voluntariado e com a cultura da empresa.

 

Como visto neste conteúdo do Chris Jarvis, uma das formas de ter um programa de voluntariado que seja transformador é apostar na formação dos voluntários. Nós do V2V lançamos um eBook sobre o tema, dando dicas para promover diferentes tipos de formação com voluntários. Baixe aqui gratuitamente.

 

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